Versão 3.1 · 30 de agosto de 2026
A versão portuguesa deste documento é a versão vinculativa.
A herança que recebemos, e o que fazemos com ela
Quarenta anos de pensamento que não é nosso, e uma pergunta portuguesa que ninguém tinha respondido
Uma ideia que foi crescendo de escala
A palavra regeneração entrou no vocabulário ambiental pela agricultura. Nos anos 80 dizia-se que sustentar os recursos agrícolas não bastava: era preciso renová-los. A unidade de trabalho era o campo.
Depois passou ao desenho. Se um edifício pode consumir menos, também pode devolver mais do que consome, e o modo de lá chegar é desenhar com o sistema em vez de contra ele. A unidade passou a ser o objeto construído.1
E depois passou ao desenvolvimento, e aí deu-se a mudança que mais importa. Deixou de se tratar de desenhar melhor um objeto e passou a tratar-se de fazer crescer a capacidade do sistema à volta dele. A unidade de trabalho passou a ser o Lugar.2
Não somos autores de nada disto. Herdámo-lo, como toda a gente que trabalha nesta área, e a honestidade sobre essa herança é a primeira condição para se poder acrescentar seja o que for.
Três coisas que ficam
O Lugar, e não o terreno
Terreno é uma extensão com limites. Lugar é uma extensão com história, com pessoas, com um modo herdado de fazer as coisas e com uma vocação própria. Dois prédios contíguos, com o mesmo solo e a mesma chuva, não são o mesmo lugar se as gerações que os trabalharam foram outras.
A consequência prática é imediata: não há modelo que se aplique. Há um lugar que se estuda antes de se propor seja o que for.
O potencial, e não o problema
Quase todo o trabalho ambiental parte de um problema, mede-o e mede depois a distância percorrida para longe dele. O trabalho regenerativo parte de outro sítio: daquilo que este lugar, com esta história e estas pessoas, é singularmente capaz de vir a ser.
O problema não desaparece e não é ignorado. Muda de estatuto. Passa de enquadramento a informação.
Totalidades encaixadas, e trabalho de desenvolvimento
Cada trabalho está dentro de outro maior e tem de o servir para se manter. E o objetivo não é entregar um resultado a um lugar: é fazer crescer a capacidade das pessoas e das instituições que lá estão.
Daqui vem a frase que a Fundação repete e que muitos acham estranha: a Fundação não regenera terra.
Não é modéstia nem divisão de tarefas. É a consequência lógica de tudo o que precede. Se a capacidade não ficar com quem está no lugar, o trabalho acaba quando nós acabarmos, e uma fundação que promete permanência não pode desenhar-se assim.
A zona que ficou de fora
A política do século XX dividiu o território em dois: zonas de produção, ou seja cidades, indústria e agricultura intensificada, e zonas de conservação, administradas limitando a atividade económica em vez de a integrar.
Ficou de fora a zona combinada: aquela em que as pessoas ganham a vida a cuidar de um lugar. É precisamente onde vive quase toda a paisagem rural portuguesa.3
Grande parte daquilo a que chamamos natureza em Portugal não é natureza intocada. É paisagem cultural: socalcos, soutos, montados, levadas e caminhos de água, matos geridos com fogo durante séculos. Entrou em deriva ecológica não por excesso de uso, mas por falta de gestão.
A aldeia era, nesta leitura, uma estrutura para gerir um ecossistema. Quando esvazia, a gestão para. As consequências não chegam sob a forma de saudade. Chegam como fogo, como perda de biodiversidade, como água que já não fica no solo, e como uma paisagem por que ninguém responde.
Não se resolve isto restaurando o que existia. Quem detinha aquele conhecimento partiu, e a nostalgia não serve para nada. O que é preciso é uma geração que saiba o que os antigos sabiam e bastante mais, e uma forma económica dentro da qual possa trabalhar.
O ponto em que a teoria encontra a conservatória
Aqui a herança que recebemos deixa de nos ajudar.
A tradição do desenvolvimento regenerativo é rica em método e pobre em direito. Diz como trabalhar com um lugar. Não diz o que acontece ao lugar quando quem lá trabalha morre, quando a herança se divide entre sete pessoas que não se falam, ou quando chega uma proposta de compra boa de mais para recusar.
Em Portugal essa é a pergunta decisiva, e tem uma dificuldade específica. Existem instrumentos voluntários, registáveis e nalguns casos perpétuos, mas nenhum foi concebido para transportar uma finalidade de conservação. O artigo 1306.º do Código Civil impede que se crie um novo direito real por via contratual: os direitos reais são os que a lei prevê, e nenhum deles tem essa finalidade no seu desenho.
É neste ponto exato que a Fundação Terra Agora existe.
O nosso contributo não é ao corpo de pensamento que herdámos. É a uma pergunta que esse corpo de pensamento não tinha de responder: o que tem de ser verdade em direito e em propriedade para que este trabalho continue ao longo de gerações. É uma pergunta portuguesa e tem de ter uma resposta portuguesa.
O que fazemos com a herança
A resposta que construímos tem três papéis e nenhum deles pode fazer o dos outros.
A Fundação cuida da propriedade da terra. O Guardião cuida da terra. O Mecenas torna as duas coisas possíveis.
O instrumento é o direito de superfície perpétuo, ao abrigo do artigo 1524.º do Código Civil, que separa a propriedade do solo da propriedade daquilo que sobre ele se faz. A terra deixa de poder ser vendida. O uso é confiado a quem cuida. E o direito fica registado sobre o prédio, o que significa que vincula quem vier a seguir, incluindo quem vier depois da própria Fundação.
Vista à luz da tradição que herdámos, esta é uma estrutura de desenvolvimento no sentido exato em que a palavra é usada: foi desenhada para fazer crescer capacidade num lugar, e não para prestar um serviço a esse lugar. A separação de papéis não é organograma. É o que impede a Fundação de se tornar aquilo que a tradição avisa que não se deve ser: alguém de fora a entregar resultados a um sítio que não é seu.
O que medimos, e o que recusamos medir
Medir é onde as intenções se verificam, e é também onde é mais fácil enganar-se e enganar os outros. A Fundação trabalha com quatro camadas, por esta ordem: os Cinco Capitais definem o valor; os Quatro Retornos concretizam-no; a contabilidade de capital natural e a SEEA medem os ativos; e uma plataforma de gestão acompanha o progresso.
A Fundação compila contas de nível local consistentes com a SEEA. Não aplica a SEEA e não produz contas SEEA. A distinção não é formalidade: é a diferença entre usar um sistema e reivindicar autoridade que não temos.4
Uma perda de capital natural nos Bens Estratégicos não é compensável por ganho financeiro.
E há um lugar onde paramos. A Fundação não publica valores monetários de ecossistemas sem que, no mesmo documento, apareçam o conceito de valor, o método e a incerteza. Um número sozinho não informa: autoriza. Autoriza uma troca que não devia estar em cima da mesa.
A capacidade de medir está a ser construída por etapas e atinge pleno funcionamento no decurso de 2027. Dizemo-lo porque é verdade, e porque uma instituição que exagera aquilo que já mede não merece confiança naquilo que promete.
O que ainda não sabemos
Estamos a fechar o primeiro direito de superfície e são as perguntas de redação que nos ocupam, não as de princípio:
- Como redigir condições resolutivas objetivamente determináveis, que permitam agir quando a finalidade deixa de ser cumprida sem depender de prova de culpa
- Como compensar benfeitorias sem expor a Fundação, os bens protegidos ou um futuro Guardião
- Como substituir um Guardião sem perturbar os direitos de quem detém o direito
- Se faz sentido, mais adiante, procurar um instrumento legislativo próprio para a conservação, e por que via
- Que nível de receita própria um Guardião real consegue sustentar a par da sua própria atividade
Publicamos esta lista de propósito. Uma fundação que aos quatro anos não tivesse perguntas em aberto ou não estaria a trabalhar, ou não estaria a dizer a verdade.
Sete gerações
O horizonte publicado da Fundação são sete gerações. Não é uma figura de estilo. Contadas a vinte e cinco ou trinta anos cada, são entre cento e setenta e cinco e duzentos e dez anos.
Nenhuma pessoa atravessa esse tempo. Nenhum governo, nenhuma empresa, nenhum contrato de financiamento, nenhum plano estratégico. É exatamente por isso que a pergunta tem de ser institucional e jurídica antes de ser ecológica: porque só as instituições e os direitos registados atravessam tempo dessa ordem, e mesmo esses só quando são desenhados para isso.
Quem trabalha assim aceita uma coisa desconfortável: não verá o resultado. A recompensa de quem planta um sobreiro não é a cortiça.
O convite
Não pedimos que se acredite em números que ainda não existem, e este documento não os apresenta. Pedimos outra coisa, mais exigente e mais justa: que se olhe para o desenho e se pergunte se ele aguenta.
Se a terra não pode ser vendida, se o direito está registado, se quem cuida tem contrato e meios próprios, se a governação impede que quem financia decida sobre o uso da terra, e se as pessoas envolvidas dizem em voz alta o que ainda não sabem, então há aqui alguma coisa que pode durar mais do que nós.
É esse o trabalho. Não é rápido, não é fácil de medir num ano, e não fica pronto. Se isto lhe diz alguma coisa, o passo seguinte é uma conversa.
De onde vem este pensamento
A Fundação trabalha dentro desta linhagem e não a reivindica
- A palavra regenerativo aplicada à terra vem de Robert Rodale, nos anos 80.
- O desenho regenerativo vem de John Tillman Lyle, Regenerative Design for Sustainable Development, Wiley, 1994.
- O desenvolvimento regenerativo e o método de trabalhar a partir do Lugar foram originados pelo Regenesis, fundado em 1995 em Santa Fe, Novo México. Obra de referência: Mang, P., Haggard, B. e Regenesis, Regenerative Development and Design: A Framework for Evolving Sustainability, Wiley, 2016; ver também Mang, P. e Reed, B., «Designing from place: a regenerative framework and methodology», Building Research and Information, volume 40, número 1, 2012.
- Os níveis de trabalho vêm de Charles Krone; os níveis de paradigma na mesma linhagem chegaram a ampla circulação através de Carol Sanford.
- Os Cinco Capitais vêm do Forum for the Future, tendo Paul Ekins como antecedente técnico. Não são um quadro do Regenesis.
- Os Quatro Retornos, inspiracional, social, natural e financeiro, são de Willem Ferwerda, desenvolvidos pela Commonland. O ciclo de vinte anos da Commonland é um ciclo de planeamento e monitorização, nunca o horizonte da Fundação.
- A leitura da aldeia e da nova economia rural segue Jaime Izquierdo Vallina, Mediterráneo Económico 35 (2021).
- A SEEA é da Comissão de Estatística das Nações Unidas.
Fundação Terra Agora
1A palavra regenerativo aplicada à terra vem de Robert Rodale, nos anos 80. O desenho regenerativo vem de John Tillman Lyle, Regenerative Design for Sustainable Development, Wiley, 1994. Referências completas na secção final.
2O desenvolvimento regenerativo, e o corpo de método para trabalhar a partir do Lugar, foram originados pelo Regenesis, fundado em 1995 em Santa Fe, Novo México.
3Esta leitura segue Jaime Izquierdo Vallina, «Una nueva economía para la aldea del siglo XXI», Mediterráneo Económico 35 (2021), pp. 105 a 120. A Commonland chega à mesma observação sobre a zona combinada em falta por outro caminho.
4Os Cinco Capitais são do Forum for the Future. Os Quatro Retornos, inspiracional, social, natural e financeiro, são de Willem Ferwerda, desenvolvidos pela Commonland. A SEEA é da Comissão de Estatística das Nações Unidas.