Abril 2024
A Carta de Princípios dos Guardiões1 apresenta o conjunto de princípios que orientam as relações entre a Fundação Terra Agora2 e os Guardiões. Resulta dos estatutos da Fundação3. A Carta de Princípios de Guardiões deve ser considerada em conjunto com os Estatutos, Carta de Princípios e o Código de Ética da Fundação.
Esta Carta foi aprovada em Reunião do Conselho de Curadores da Fundação de Abril de 2024 e encontra-se em vigor desde essa data. Será revista, no máximo, a cada 5 anos – próxima revisão até o ano de 2028. Todas as propostas de alteração devem ser enviadas, no momento em que surjam, para o Conselho de Administração da Fundação.
O processo de alteração da Carta é:
- Conselho de Administração consulta todas as partes, ouvindo todos os Presidentes dos Orgãos Sociais, bem como Mecenas e Guardiões e recolhe as propostas de alteração;
- Elabora nova versão e aprova em reunião de Conselho de Administração, submetendo a versão aprovada ao Conselho de Curadores;
- Conselho de Curadores faz aprovação após negociação com o Conselho de Administração, sendo o processo mediado pelos respectivos Presidentes;
- A versão aprovada da Carta é enviada pelo Conselho de Administração a todas as partes interessadas e publicada no website da Fundação.
- A Carta de Princípios, o Código de Ética, a Carta de Princípios dos Mecenas e a Carta de Princípios de Guardiões são 4 documentos que formam uma unidade e devem ser revistos em conjunto.
Conceitos fundamentais
Guardiões são pessoas colectivas que estabelecem uma relação formal, através de um Contrato de Guardião4, com a Fundação para desenvolver um projecto num ou mais bens estratégicos – Projecto Guardião5 – de acordo com os estatutos da Fundação.
Os Guardiões comprometem-se com a Carta de Princípios e com o Código Ético da Fundação e garantem que a sua instituição e as suas pessoas o irão seguir, bem como que aplicarão a Carta de Princípios dos Mecenas aos seus financiadores e Mecenas.
O conceito de Guardião aqui exposto resulta da Fundação se ver como ‘Guardião da Terra’. E como as organizações são formadas por pessoas, o termo Guardião também pode ser aplicado às pessoas que fazem parte do colectivo Guardião – Pessoa Guardião.
Em resumo:
- A Fundação é o Guardião último dos bens estratégicos;
- O Guardião celebra um ‘Contrato Guardião’ com a Fundação para executar um ‘Projecto Guardião’;
- O Guardião é formado por pessoas, que são as ‘Pessoas Guardião’.
Direcção dos Guardiões
Para serem Guardiões da Fundação, os Guardiões, pessoas e organização, devem estar alinhados com o propósito, valores, visão e missão da Fundação, transpostos para os Estatutos e Cartas do Guardião.
O propósito e os valores do Guardião, bem como o seu Objecto Social, devem estar focados e fechados à percussão do Projecto Guardião.
Autonomia e Responsabilidade dos Guardiões
O Guardião é o único responsável e tem total autonomia na elaboração do Projecto de acordo com o Contrato celebrado com a Fundação. Errar faz parte do processo e a Fundação estimula a aprendizagem e a partilha de conhecimento, das lições aprendidas, do que funcionou e do que não funcionou. A Fundação estimula uma comunicação aberta, transparente e voluntária. O dever de comunicação sobre o Projecto é do Guardião.
A Fundação pode comentar e dizer o que pensa sobre determinado assunto e a responsabilidade da decisão, acção e suas consequências é sempre do Guardião.
Natureza dos Guardiões
Os Guardiões podem ser Associações, IPSS, Cooperativas, Fundações ou Empresas constituídas em Portugal, a saber:
- Se Associação e IPSS: que os membros da direcção são parte integrante e activa do projecto de guardião e que os associados estão todos diretamente relacionados com o projecto guardião e o seu território
- Se Cooperativa: que os membros da direcção são parte integrante e activa do projecto de guardião e que os cooperantes estão todos diretamente relacionados com o projecto guardião e o seu território
- Se Fundação: que os membros do Conselho de Administração são parte integrante e activa do projecto de guardião
- Se Empresa (Lda, SA): em ambos os casos, a maioria do capital será nominal e terá que pertencer a pelo menos 3 pessoas que façam parte integrante e activa do Projecto. A empresa compromete-se a ser gerida como uma empresa orientada ao propósito, tal como são as ‘empresas sociais’6
Os associados, cooperantes, membros, sócios ou accionistas podem ser individuais ou colectivos formalizados, multi-sectoriais como sejam empresas, ONGs, estado, sociedade civil. Ao aderirem ao Guardião terão aceite o cumprimento do Contrato existente.
Governação
A Fundação estimula que os Guardiões usem governação dialógica, relacional, circular, sem hierarquias e potenciadoras da inteligência colectiva.
Os sistemas de governação dos Guardiões devem ser claros em relação a:
- Como adquirir e perder a qualidade de membro (e.g. associados, cooperantes, sócios, accionistas) ?
- Como se tomam decisões em particular as que mudam as regras, propósito e governação ?
- Como se resolve conflitos e se lida com a tensão internamente e externamente ?
- Como se promove a evolução e o desenvolvimento humano de cada pessoa que faz parte do Guardião ?
Investimento da Fundação
A Fundação não fará investimento nos Guardiões e/ou nos Projectos. A excepção poderá ser no financiamento da elaboração do Projecto, nas condições acertadas com a Fundação.
A Fundação trabalhará em conjunto com os Guardiões na realização de diligências e acesso aos Mecenas e outros investidores no ecossistema da Fundação.
O papel de isenção – neutralidade de interesses – e a capacidade técnica de monitorização e suporte dos Projectos no tempo de Projecto / Contrato é uma das mais valias que a Fundação coloca ao serviços de Guardiões e Mecenas.
Cabe ao Guardião demostrar de que dispõe de meios e condições financeiras tendo em vista o cumprimento dos objectivos a que se propôs no Projecto.
Donativos à Fundação
Para além das obrigações presentes no Contrato, cada Guardião em função dos seus resultados poderá fazer donativos à Fundação, contribuindo assim para o propósito e missão da Fundação, quer no seu funcionamento corrente, quer no investimento em bens estratégicos e/ou financiamento da elaboração de projectos, estudos e outros trabalhos necessários à boa gestão da Fundação.
Os donativos são voluntários e de decisão exclusiva do Guardião.
Tipologias de Projecto
Cada Projecto tem o seu propósito e missão. A Fundação cuida da propriedade da terra, retirando essa tema da equação. O Guardião cuida da terra. É infinito o que se pode fazer ****em cada Projecto e para a Fundação é mais importante ‘como se faz’ do que ‘o que se faz’.
Apresentamos algumas topologias que são ilustrativas de alguns tipos de Projectos:
- Corredores de vida selvagem incluindo
- Conservação da natureza e da biodiversidade (promoção ou conservação de espécies e habitats protegidos ou ameaçados).
- Rewilding/Renaturalização
- Restauro e Resiliência Ecológica ou da Paisagem (e.g. restauro pós-incêndio, invasoras).
- Floresta autoctone
- Actividades económicas regenerativas incluindo
- Agroecologia.
- Produção (agrícola/silvícola) sustentável.
- Pastoreio holístico.
- Bem-estar animal.
- Demonstração de Modelos Produtivos, Sociais e Económicos Alternativos.
- Ecoturismo, Turismo rural, Eco-retiros.
- Urbano/ inovação e transformação social (e.g. ecoaldeia, ecobairro, co-works, impact hubs, legacy spaces, centros de retiros), incluindo:
- Cidadania Ativa e Movimentos de Proteção
- Educação Ambiental, Formação;
- Estabelecimento/dinamização das Comunidades no Mundo Rural;
- Misto/ Combinado – combinando uma ou mais topologias (e.g. 3 zonas da Commonland7 – projecto que tem corredor de vida selvagem, floresta/ agricultura para economia local, parte urbana com habitação sustentável não especulativa, actividades produtivas e sociais, regenerativas).
Sublinhamos que são importantes, em todas as topologias, critérios como:
- Mitigação e Adaptação às Alterações Climáticas
- Sequestração de Carbono
- Biodiversidade
- Restauração de ecossistemas8
- Ligação Mar-Terra
Retorno dos Projectos em 5 capitais
Os Projectos devem ser desenvolvidos tendo em conta 5 capitais9 e apresentar retorno em;
- Capital Natural (e.g. solo, biodiversidade, água)
- Capital Social (e.g. postos de trabalho, economia local)
- Capital Humano (e.g. capacitação, desenvolvimento humano)
- Capital Construído (e.g. edifícios, modelos, frameworks)
- Capital Financeiro (e.g. mais valias, investimento)
Linhas orientadoras para os Projectos
Os Projectos devem ser desenvolvidos tendo em conta:
- Muito, muito longo prazo, de 7 a 12 gerações, de 175 a 300 anos.
- Fomentar o desenvolvimento dos seres humanos em 5 corpos (ver Carta de Princípios).
- Adoptar o pensamento de sistemas complexos vivos.
- Desenvolvimento local regenerativo10 (que inclui integração/ envolvimento da comunidade local e respectivos representantes legais, bem como ter profundo conhecimento da história do lugar).
- Fomentar a economia local, regenerativa e dar preferência a fornecedores locais e éticos.
- Adoptar finanças éticas.
- Com limites inferiores (sociais) e superiores (ecológicos e de crescimento)11.
- Adoptar práticas de Governação dialógica, circular e participativa.
- Constituir equipas e indivíduos baseados em consciência, individual e colectiva.
- Ciência como instrumento – âncora no desconhecido e na experimentação com outros pares, em equipa.
- Praticar Agroecologia, incluindo permacultura e agricultura sintrópica, biodinâmica entre outras, dando prioridade à conservação e regeneração de água, solos, e biodiversidade.
- Criar ou proteger florestas autoctones/ especies autoctones.
- Promover a inclusão das gerações mais novas e mais velhas.
- Obter todas as licenças e formalidades previstas pela lei portuguesa.
- Desenhar para o fim do ciclo de vida (integrando os princípios da economia circular) – o que acontece ao bem (e.g. máquina, ao prédio, produto) no fim do seu ciclo de vida e como volta a ser integrado nos ciclos naturais.
- Trabalhar segurança econômica, alimentar, saúde, ambiental, pessoal, comunitária e política.
- Respeitar os documentos da Fundação: estatutos, Carta de Princípios, Código Ético, Carta de Princípios dos Mecenas e dos Guardiões. Adoptar e estimular a sua aplicação na sua instituição e nas instituições com que se relaciona.
- Adoptar uma comunicação voluntária à Fundação e cumprir as obrigações contratuais no que respeita ao reporte e facultar informação e acesso aos diferentes locais por pessoas que representem a Fundação no seu papel de monitorização e acompanhamento.
- As benfeitorias a realizar devem estar bem definidas no Contrato, bem como o seu valor de compensação, indemnização, fórmulas de desvalorização e pagamento entre outros tópicos.
- O Contrato deve indicar como proceder em caso de falência ou dissolução do Guardião.
Restrições dos Projectos
Aos Projectos (e Guardiões) está expressamente vedado actividades que:
- Promovam a especulação de qualquer natureza.
- Usem quaisquer produtos químicos, não orgânicos, que possam causar danos, por exemplo aos solos, cursos de água.
- Abatimento de floresta.
- Promoção da monocultura – degradação da biodiversidade.
- Imputem à Fundação responsabilidade decorrente da acção de Guardiões – e.g. fizeram um furo sem as aprovações legais necessárias.
- Incutem maus tratos animais ou humanos.
- Tenham impacto nefasto nos ecossistemas circundantes, não promovendo as condições para a saúde dos ecossistemas.
- Subcontratação a terceiros para cumprimento das tarefas a cargo do Guardião ou a permuta entre o Guardião e terceiros de terrenos, através de arrendamentos ou outras figuras, não são admissíveis, salvo se tal subcontratação ou permuta for previamente aprovada pela Fundação e façam parte do Contrato.
- Qualquer actividade que não cumpra a legislação portuguesa aplicável.
Podem ser consideradas excepções, desde que aprovadas pela Fundação e requisitadas pelo Guardião.
Criação e partilha de conhecimento
A Fundação subscreve os princípios do Creative Commons. É de vital importância a partilha do conhecimento e aprendizagens feitas por todos os participantes. Os Guardiões são convidados a partilhar de forma aberta as suas aprendizagens com os seus pares e comunidade alargada (e.g. científica).
Desta forma a Fundação poderá cumprir a sua missão educativa, sistematizando o conhecimento, publicando-o, distribuindo e divulgando.
Natureza do Contrato
Cada Contrato é único e adaptado à natureza e tipologia de Projecto. Por defeito vamos usar o ‘direito de superfície‘. E estamos abertos a analisar outras naturezas disponíveis na legislação Portuguesa.
O Contrato não é transmissível a terceiros sem o aval prévio da Fundação.
A intenção da Fundação é de criar e manter uma ligação de muito muito longo prazo com o Guardião, o que envolve vontade de ambas as partes. Sublinhamos que podem haver situações em que esta intenção não é possível e que os Contratos devem prever estes aspectos.
Não concorrência
O Guardião não poderá, sem autorização prévia da Fundação, adquirir e arrendar terrenos adjacentes em nome próprio ou de outras entidades, confinantes ou que de alguma forma concorram com os bens estratégicos da Fundação, tendo em vista a obtenção de qualquer benefício para si ou para terceiro, sem a prévia concordância da Fundação.
Linhas gerais do Processo
O processo para a celebração do Contrato e execução do Projecto pode ter os seguintes passos:
- Identificar o bem estratégico (pode já fazer parte do portfólio da Fundação ou vir a ser adquirido).
- Identificar e suportar a constituição do Guardião.
- Suportar o Guardião na elaboração do Projecto.
- Submeter a aprovação da Fundação o Projecto e respectivas diligências/ negociações de aprovação.
- Aprovação e celebração do Contrato.
- Execução do Projecto com suporte da Fundação no investimento, acesso ao conhecimento e outros recursos necessários.
- Monitorização do Projecto/ Contrato e partilha de conhecimento.
É normal que o processo até ao Contrato possa levar anos (e.g. 3 anos) em particular se incluir a aquisição de propriedades e angariação de investimento.
1 Futuramente designado por Carta.
2 Futuramente designada por Fundação.
3 https://terra-agora.org/wp-content/uploads/2022/02/Estatutos_Fundacao-TerraAgora.pdf
4 Futuramente designado por Contrato.
5 Futuramente designado por Projecto.
6 Empresa Social. M Yunnus
7 https://4returns.commonland.com/[8](https://www.notion.so/05-2-5-Charter-of-Principles-of-Guardians-2f3d117012398017bdedc29265a49acf?pvs=21)https://www.ser.org/page/SERNews3113
9 Desenvolvimento Regenerativo pela https://www.regenerat.es/.